LÁGRIMAS DA VIDA
LÁGRIMAS DA VIDA
 

Se tu souberas que lembrança amarga
Que pensamento desflorou meus dias,
Oh! Tu não creras meu sorrir leviano,
Nem minhas insensatas alegrias!

LÁGRIMAS DA VIDA

Quando junto de ti eu sinto, às vezes,
Em doce enleio desvairar-me o siso,
Nos meus olhos incertos sinto lágrimas...
Mas da lágrima em troco eu temo um riso!

LÁGRIMAS DA VIDA

O meu peito era um templo - ergui nas aras
Tua imagem que a sombra perfumava...
Mas ah! emurcheceste as minhas flores!
Apagaste a ilusão que a aviventava!

LÁGRIMAS DA VIDA

E por te amar, por teu desdém, perdi-me...
Tornei-me nas orgias macilento,
Brindei blasfemo ao vício, e da minh'alma
Tentei me suicidar no esquecimento!

LÁGRIMAS DA VIDA

Como um corcel abate-se na sombra
A minha crença agoniza e desespera...
O peito e lira se estalaram juntos...
E morro sem ter tido primavera!

LÁGRIMAS DA VIDA

Como o perfume de uma flor aberta
De manhã entre as nuvens se mistura,
A minh'alma podia em teus amores
Como um anjo de Deus sonhar ventura!

LÁGRIMAS DA VIDA

Não peço o teu amor...eu quero apenas
A flor que beijar para o ter no seio...
E teus cabelos respirar medroso...
E os teus joelhos suspirar d'enleio!

LÁGRIMAS DA VIDA

E quando eu durmo..e o coração ainda
Procura na ilusão tua lembrança
Anjo da vida passa nos meus sonhos
E meus lábios orvalha d'esperança!


Álvares de Azevedo

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LÁGRIMAS DA VIDA

 

 
 
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