LONGE DE TI

LONGE DE TI

Quando longe de ti, eu vegeto,
Nessas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes,
Marca séculos, se esquece de andar.
Fito o céu - é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra - é uma várzea sem flores.
O universo é um abismo de dores,
Se a madona não bulha no altar.
Então, lembro os momentos passados
Lembro então tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas,
Uma a uma desfia na mão
Como a virgem que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos que deste-me um dia
E que eu guardo no meu coração.
Lembro ainda o lugar onde estavas...
Teu cabelo, teu rir, teu vestido...
De teu lábio o fulgor incendiado...
Destas mãos a beleza ideal...
Lembro ainda em teus olhos, querida,
Este olhar de tão lânguido raios,
Este olhar que me mata em desmaios
Doce, eterno, amoroso, fatal...
Quando a estrela serena da noite
Vem banhar minha fonte saudosa,
Julgo ver nessa luz misteriosa,
Doce amiga, um carinho dos teus!
E ao silêncio da noite que anseia
De volúpia, de anelos, de vida.
Eu confio o teu nome, querida,
Para as brisas levarem-no aos céus.
De ti longe, minh'alma vegeta.
Vive só de saudade e lembrança,
Respirando a suave esperança
De viver como escravo a teus pés,
De sonhar teus menores desejos,
De velar em teus sonhos dourados,
"Mais humilde que os servos curvados!
Inda mais orgulhoso que os reis"!
Ó meu Deus ! Manda às horas que fujam,
Que deslizem em fios os instantes...
E o ponteiro que passa os quadrantes
Marque a hora em que posso fitar!
Como Tântalo à sede morreria,
Sem achar o conforto preciso...
Morro à míngua, meu Deus, de um sorriso!
Tenho sede, Senhor, de um olhar!


Castro Alves

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