PÁSSAROS
 
PÁSSAROS
Olha como, cortando os livres ares,
Passam do vale do monte as andorinhas
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que, à tarde, cobre transparente véu;
Voam também como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos,
Zumbam da fúria dos contrários ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.
PÁSSAROS
Porque o céu é também aquela estância
Onde respira a doce criatura,
Filha do nosso amor, sonho da infância,
Pensamentos dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flor, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!
PÁSSAROS
Vão para aquela estância enamorados
E estas noites de lágrimas e dor.
Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira,
Dizendo aos ecos a canção primeira
De um livro escrito pela mão do amor.
PÁSSAROS
Dirão também como conservo ainda
No fundo de minh'alma essa lembrança
De tua imagem vaporosa e linda,
Único alento que me prende aqui.
PÁSSAROS
E dirão mais que estrelas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas
Como sobem ao monte as andorinhas
Meus pensamentos voam para ti.

Machado de Assis

PÁSSAROS

 

 
 
RESPEITE OS DIREITOS AUTORAIS !
Não é permitida, sem prévia autorização,
a reprodução desta página.

Obrigada !
WebDesign : Angela Cecilia