ROSA PÁLIDA

ROSA PÁLIDA

Rosa pálida, em meu seio
Vem, querida sem receio
Esconder a aflita cor
Ai! a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

ROSA PÁLIDA

Pois sim...quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

ROSA PÁLIDA

Mas não eras, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Coravam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos...
Vales mais mil vezes, mil.

ROSA PÁLIDA

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos céus,
Comparar tua beleza
Às filhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.

ROSA PÁLIDA

E vergonha!... de quê, vida!
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porque?... Porque em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

ROSA PÁLIDA

Pois, quando eras tão vermelha
Não tinha zangão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias dos mil amores
Que não tinhas, repetir?

ROSA PÁLIDA

Que hão - de eles dizer agora?
Que pendente e de quem choras
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi, de ser muito beijada
Que te veio a desbotar?

ROSA PÁLIDA

Deixa-os: pálida ou corada,
Ou esenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela,
Se lhe dão só um amor.

ROSA PÁLIDA

Ai ! Deixa-os, e no meu seio
Vem, querida sem receio
Vem a frente reclinar
Que pálida estás, que linda!
Oh! Quanto mais te amo ainda
Dês que te fiz desbotar.


Almeida Garrett

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ROSA PÁLIDA

 

 
 
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